( ouvir é a mais pura maneira de calar )

 Vem à Quinta-feira.  É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja  ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris  for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a Guimarães  assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.  Vem à Quinta-feira.  A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego,  e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare  de acabar tão depressa.  Vem à Quinta-feira.  Mas não venhas nesta, vem na próxima.  Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso  profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê hipótese de irmos  a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo  para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,  para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.  Vem à Quinta-feira e não te demores.  Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista  (sabes como gosto de pensar em tudo  ao mesmo tempo)  e afinal o que me falta fazer contigo   não é caro:  - viajar de auto-caravana, - dançar pela Estrada Nacional,  - ver-te chorar.  Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.  Vem à Quinta-feira.  Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.  Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras,  eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.  Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.  Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.  Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor - ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.  Temos ainda tanto para fazer.  Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa Quinta.  Filipa Leal, in "21 Cartas de Amor"  ( fotografia autor desconhecido )   (RJ)


Vem à Quinta-feira.
É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja
ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris
for muito caro – sei que isto não está fácil – podemos ir a Guimarães
assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.
Vem à Quinta-feira.
A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego,
e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare
de acabar tão depressa.
Vem à Quinta-feira.
Mas não venhas nesta, vem na próxima.
Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso
profissional – sabes que isto não está fácil – e talvez nos dê hipótese de irmos
a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo
para arranjar o cabelo, para arranjar o coração,
para elaborar a lista do que me falta fazer contigo.
Vem à Quinta-feira e não te demores.
Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista
(sabes como gosto de pensar em tudo
ao mesmo tempo)
e afinal o que me falta fazer contigo
não é caro:
– viajar de auto-caravana,
– dançar pela Estrada Nacional,
– ver-te chorar.
Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.
Vem à Quinta-feira.
Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes.
Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras,
eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona.
Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana.
Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro.
Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor
– ou, pelo menos, é o que diz o Youtube.
Temos ainda tanto para fazer.
Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa Quinta.
Filipa Leal, in “21 Cartas de Amor”
( fotografia autor desconhecido )
(RJ)

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